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segunda-feira, 22 de março de 2010
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Notícias 
Entrevista com o Jornalista Edney Silvestre

Foto: divulgação
Foto: divulgação
 
O jornalista Edney Silvestre lança seu quinto livro, Se Eu Fechar os Olhos Agora (Ed. Record). O autor aborda neste romance um crime brutal contra uma linda mulher, morta e mutilada numa pequena cidade da antiga zona do café fluminense. 

Na entrevista Silvestre falou sobre seu processo de criação, sobre seu estilo literário e das suas influências a partir da vida jornalística.

O escritor estará em BH para participar de mais uma edição do projeto Sempre um Papo que acontece dia 09 de novembro, no Teatro João Ceschiatti, às 19h30.

 


1.    Em seus títulos anteriores, você sempre optou por outros estilos literários, como a crônica. O que o motivou a escrever, agora, um romance?

“Se eu fechar os olhos agora” é o primeiro romance que publico, mas não o primeiro que escrevo.  Antes de “Dias de cachorro louco” (1995) e de “Outros tempos” (2002), os meus dois livros de crônicas, eu havia escrito dois romances.  Os dois foram para o lixo.  Levei 6 anos escrevendo “Se eu fechar os olhos agora”. Desta vez, finalmente, acredito que tenha construído um romance que merece ser lido: uma história de inocência perdida, tal como a nossa, dos brasileiros, que acreditamos em tantas possibilidades e nos vemos mergulhados em um país onde ainda há tanta corrupção e tanta injustiça social.

2.    Quando você escreve uma ficção – que não necessariamente trata da verdade nua e crua dos fatos - o jornalista (um profissional tão comprometido com a verdade quase absoluta) fica totalmente de fora do processo? Como você consegue se desligar deste “vício” de se ater ao real para entrar no mundo da ficção?

No começo de minha carreira, como acontece com tantos de nós, fiz cobertura de fatos policiais.  Fui testemunha de crimes bárbaros, vi coisas hediondas, que confirmaram o lado tenebroso do ser humano. Mas nós não somos só trevas.  Somos também seres que podem ser iluminados e iluminar à volta.  Hoje, no meu quadro semanal no RJTV, denominado “Bate-papo”, apresento mulheres e homens anônimos, mas que estão transformando o mundo à volta deles, particularmente favelas e comunidades devastadas pela pobreza, pela violência e pelo tráfico de drogas, com sua dedicação e altruísmo.  Fui, também, testemunha do ato ato terrorista mais covarde deste nosso século: a morte de quase 3 mil civis, no atentado ao World Trade Center.  Eram mulheres grávidas, jovens em início de carreira, senhores prestes a se aposentar, pessoas de mais de trinta nacionalidades, inclusive brasileiros. Mesmo escrevendo ficção, estas minhas experiências se refletem no texto.  Não pretendo, nem quero, evitá-las. 

3.    Em “Se eu fechar os olhos agora” a história de um assassinato brutal é o fato que leva dois jovens a investigarem os reais motivos do crime, pois não se convenceram da versão oficial da polícia. Quanto disso tem de seu olhar jornalístico?

Só os ingênuos e os loucos acreditam que podem mudar o mundo.  E, ao longo dos séculos, foram estes loucos e ingênuos que mudaram aquilo que a todos parecia errado.  Os dois jovens de “Se eu fechar os olhos agora” acreditam na transformação democrática do nosso país, assim como acreditam que um inocente está preso injustamente por um crime que não cometeu.  E buscam razões para libertá-lo.  A eles se junta um velho comunista, talvez louco, talvez não.  O leitor dirá.  E poderá apontar até onde a minha experiência jornalística, o meu “olhar jornalístico”, marca o meu texto.

4.    A história do livro é ambientada no começo da década de 60, alguns anos antes da instauração do golpe militar. Neste momento a violência urbana ainda não era tão exacerbada como hoje. Gostaríamos que você nos contasse como foi o processo de criação de um universo tão diferente em relação à realidade atual. Naquela época, um assassinato deste porte, talvez fosse muito mais chocante para uma comunidade do que é hoje (tendo em vista os tantos jornais e noticiários televisivos dedicados exclusivamente a este assunto).

O romance começa nos tempos atuais, volta ao início dos anos 1960, em seguida vai para uma situação que acontece poucos meses depois do atentado ao World Trade Center.  Anita, a bela mulher barbaramente assassinada naquela cidade do interior do Estado do Rio era apenas - como dirá mais tarde uma personagem-chave para entender todo o contexto de “Se eu fechar os olhos agora” – um cadáver sem importância.  As razões para isso serão compreendidas por quem ler o romance.  Quem viveu em cidade pequena, como eu, sabe que o disse-me-disse do povo não movimenta a polícia nem as autoridades.  Meu pai morreu atropelado pelas costas, na calçada, pelo caminhão de uma grande construtora que vinha na contramão e, ao se deparar com um ônibus, subiu na calçada e o matou, jogando longe. As testemunhas viram que o pára-brisas arrebentou e que a frente do caminhão ficou amassada. Quando a polícia, finalmente, dias depois do enterro do meu pai, se dignou a buscar o caminhão e o motorista na garagem da construtora, não havia mais nenhum caminhão avariado.  Todos os veículos estavam em perfeito estado.  Não havia mais nenhuma prova. O crime nunca foi punido. 

5.    O tema forte e polêmico que o livro trata - um violento assassinato- se relaciona diretamente com a realidade que vivemos hoje em dia, não só no país, mas em âmbito mundial. Partindo deste ponto de vista, você considera o teor do livro otimista ou pessimista em relação a essa realidade?

Desde tempos imemoriais existe essa luta entre as forças do bem e as forças do mal. Anita, a personagem-central de meu romance, é o Brasil transubstanciado, como disse o Luiz Ruffatto, ao analisar o livro. O que irá acontecer com Eduardo e Paulo, os dois jovens que se metem a investigar o crime, será um espelho do que aconteceu com tantos outros jovens, daqueles tempos e de hoje.  O bem não vence sempre. Mas o mal, também não.

6.    Como correspondente internacional já cobriu diversos acontecimentos impactantes como os atentados ao World Trade Center, que deram origem a seu livro “Outros tempos”. “Se eu fechar os olhos” guarda alguma relação com algum fato que já tenha coberto?


Tudo o que vi, tudo o que testemunhei, se reflete neste romance.  Eu nunca teria entendido a extensão do verdadeiro calvário por que passa Anita, se não tivesse testemunhado os atos covardes e violentos que vitimam centenas de milhares de mulheres no Brasil – até hoje.  Eu nunca teria compreendido a dor de perder entes queridos, pulverizados a ponto de não ter nada para enterrar, de não tivesse visto os pais escavando as ruínas do World Trade Center em busca de algum sinal de seus filhos.  Ou o horror e impotência de ver as pessoas que saltavam, umas após as outras, das janelas do World Trade Center.  O crime – o crime final – de que Anita foi vítima, e que motiva todo o desenrolar de “Se eu fechar os olhos agora”, tem referência com um assassinato ocorrido, muitos anos atrás, em uma cidade do Estado do Rio.

7.    Que expectativa mantém em relação à recepção do público para esse novo trabalho, tendo em vista o sucesso que suas publicações anteriores alcançaram?


Minha esperança é que o livro toque o sentimento e a razão de quem o ler, que leve as pessoas a refletir: o que fizemos com nossas vidas? O que estamos fazendo com nosso país? É possível perder tudo o que se sonha e, apesar disso, continuar sonhando? 

8.    Pretende lançar novos romances no decorrer de sua carreira como escritor?

Levei seis anos escrevendo “Se eu fechar os olhos agora”.  Escrevia enquanto viajava fazendo reportagens, escrevia em aviões, ônibus, escrevia nos fins de semana, nas madrugadas de insônia, escrevia acreditando que tinha uma história para contar, e que era importante que eu a contasse.  Como tenho várias outras para contar, e como gosto da minha profissão de repórter, pretendo continuar conciliando estes lados.  Mas como vi que sou lento ao escrever ficção, vou precisar de muitos anos de vida para completar os cinco ou seis romances que estão na minha cabeça.  Preciso de mais uns trinta, trinta e tantos anos de vida.  (Se vierem mais, melhor).


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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