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sexta-feira, 19 de março de 2010
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Maestro Fabio Mechetti

Maestro Fábio Mechetti  Maestro Fábio Mechetti  Maestro Fábio Mechetti
Fotos: Paulo Lacerda

Natural de São Paulo, Fabio Mechetti é Regente Titular e Diretor Musical da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde sua criação, em 2008. Por esse trabalho recebeu o XII Prêmio Carlos Gomes/2008 na categoria Melhor Regente brasileiro. É também Regente Titular e Diretor Artístico da Orquestra Sinfônica de Jacksonville, EUA, desde 1999. Foi Regente Residente da Orquestra Sinfônica de San Diego, Regente Titular da Orquestra Sinfônica de Syracuse e da Orquestra Sinfônica de Spokane, da qual é, agora, Regente Emérito. Dentro do seu repertório operístico destacam-se produções de Tosca, Turandot, Carmen, Don Giovanni, Cosi fan Tutte, Bohème, Butterfly, Barbeiro de Sevilha, La Traviata e As Alegres Comadres de Windsor.  Na montagem da ópera Macbeth, realizada pela Fundação Clóvis Salgado, o maestro assina a direção musical e regência. Confira a entrevista.

Por Nian Pissolati
04 de junho de 2009

Quais as principais diferenças em reger uma ópera e uma orquestra?


A diferença básica é logicamente que os componentes que nós temos que trabalhar em uma ópera são muito mais diversos que em um concerto sinfônico. No concerto sinfônico você tem a orquestra, que é seu instrumento e um solista de vez em quando. Mas em ópera há uma série de variáveis. Coro, cantores, movimentação cênica, banda interna, fora a orquestra, logicamente, no fosso. Então o que você tem que coordenar e  integrar é um pouquinho mais complexo por causa disso. Mas do ponto de vista das exigências técnicas, musicais e artísticas é praticamente a mesma coisa. A linguagem operística é diferente da linguagem sinfônica, mas tanto a orquestra, quanto o regente e os cantores somos acostumados a trabalhar com essa linguagem. 

 Na ópera, como se dá a relação entre diretor musical e diretor de cena? 

O ideal, logicamente é que haja uma simpatia de pensamento em relação à obra. Quando eu aceitei fazer Macbeth com a Fundação Clóvis Salgado foi na condição de procurar não destruir a intenção básica da ópera dentro de uma filosofia mais criativa do ponto de vista cênico. Porque hoje em dia tem muita gente que acha que sabe mais do que Verdi, Puccini e querem revestir a ópera de um caráter que deturpa um pouco a mensagem inicial. Então minha única condição foi que a FCS contratasse um diretor de cena que fosse uma pessoa criativa, entendesse a relevância do texto no contexto de hoje mas que não tirasse o caráter básico da ópera de Verdi. Principalmente o Verdi, porque ele mesmo criticava muito as pessoas que não seguiam as instruções que ele dava nas partituras. Então é uma questão de fidelidade à partitura.

Esta é a terceira Ópera que o senhor  apresenta com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Qual a diferença  - na direção e regência – das montagens?

Cada ópera é muito diferente. O que eu vejo de positivo da participação da Orquestra Filarmônica nas óperas é que para o músico é um aprendizado. Tocar em ópera requer uma outra atitude, diferente daquela de tocarem música sinfônica. Exige por parte do músico prestar atenção no que está acontecendo em cena, já que todas as apresentações serão diferentes, porque cantor, dependendo da saúde vocal no dia, varia muito a maneira como vai interpretar. Então, como treinamento, eu acho muito saudável que uma orquestra toque ópera.

O fato de haver solistas estrangeiros torna o processo mais complicado?


Não, acho que não interfere em nada. Muito pelo contrário. Os estrangeiros geralmente são muito bons profissionais, já cantaram esses papéis várias vezes, então facilita a colocar as coisas juntos. A diferença é que eles terão que conviver com outro elenco e se integrar a uma nova concepção cênica. Mas eu acho que é uma participação importante, considerando que são cantores bons e experientes. Isso então só facilita o processo.  

Verdi é notadamente um autor crítico. A obra Macbeth é escrita por Shakespeare no século XVI, sobre uma Escócia do século XI. O que há de mais contemporâneo nesta obra que ainda a torna fascinante em uma montagem brasileira no século XXI?

Falávamos sobre isso no ensaio de hoje. A história de Macbeth se passa a mil anos atrás. Século XI. Foi escrita no século XVII, mas a história se passa no século XI. O que é essa história? É a história de rivalidades entre a usurpação do poder, o conflito entre duas políticas diferentes, o uso da violência e manipulação para conseguir benefícios próprios. O que é diferente hoje em dia, mil anos depois? Se você transpuser a história, por exemplo para o Iraque, entre xiitas e sunis, palestinos e israelenses que se matam, cada um buscando seus interesses... Quer dizer, as grandes obras primas, são obras primas porque são eternas, trazem conceitos eternos. Então a relevância de se fazer Macbeth hoje em dia ou qualquer outra obra de Shakespeare é porque essas idéias podem ser totalmente entendidas e apreciadas pelo público. E nos deixa inclusive com vergonha, porque mil anos depois continuamos fazendo as mesmas coisas.

Macbeth já teve várias montagens no mundo. Como se dá este processo de criação de uma nova montagem? Como ser original com tantas referências?

Bem, a música é a mesma. Existem duas versões para Macbeth, de Verdi, mas se faz geralmente a mesma. Não existe muita coisa que você possa fazer musicalmente. Mas a diferença é justamente como você interpreta isso do ponto de vista cênico, do entendimento da cena. O cenário e os figurinos estão sendo montados para essa produção. Então, por este ponto de vista, a parte visual da ópera é nova, é criativa, não tem nada a ver com o que aconteceu antes. Mas em quase toda ópera, música lírica ou sinfônica que a gente apresenta, o pessoal sempre pergunta como é que se pode tocar, por exemplo, a 5ª Sinfonia de Bethoven e manter o frescor? O diretor  já pode ter tocado várias vezes, por exemplo Macbeth, mas o  público que está  ali no Palácio das Artes está assistindo a ópera pela primeira vez. Para ele é tão fresco quanto para o público que foi assistir a primeira audição de Macbeth, na Itália, no século XIX. Agora, hoje em dia, em geral, essa questão de ter que fazer alguma coisa diferente porque já se fez muito, faz com que as pessoas que façam as coisas fidedignamente sejam frescas. Porque o intérprete se tornou a grande estrela e não mais o compositor.  Então eu parto do princípio que se criou tanto distanciamento entre a obra escrita e a obra interpretada, que hoje em dia é refrescante ver aquele que se volta pro original e mostra que o autor é gênio porque escreveu uma coisa que merece ser executada da mesma forma que foi escrita.  

No cenário brasileiro, Minas Gerais vem se destacando no que tange a área de música erudita. Temos a OSMG, A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais - criada ano passado. Além disso,  vem se firmando a cada ano mais a temporada de óperas da FCS.  Como você vê a situação de Minas em relação ao resto do país?

Eu vejo com muito bons olhos. Nos últimos 15, 20 anos, finalmente houve uma conscientização no nível político de que cultura também merece investimento, porque tem retorno. Seja do ponto de vista econômico, educacional, de sociedade, de resgate social, seja do ponto de vista de civilização. Temos a OSESP, em São Paulo, Orquestra Sinfônica da Petrobras  que está passando por um processo de reformulação e agora Minas Gerais. Isso tem trazido uma esperança aos amantes da música, que tiveram que esperar 50 anos para ver uma sinfonia tocada dessa maneira. E também isso está começando a trazer benefícios à imagem de Minas no resto do Brasil. Porque tirando o eixo Rio-São Paulo por muitas décadas, do ponto de vista cultural, Minas era o primo pobre. Teve uma tradição muito grande na época colonial, a arte mineira barroca, a música colonial, e isso se perdeu com a corte no Rio de Janeiro e o progresso em São Paulo. Finalmente a coisa agora está se deslocando. As pessoas estão reconhecendo nacionalmente os frutos dos investimentos que o governo está fazendo. Quanto mais e melhor, melhor.

Com experiência e trabalhos diversos no exterior, em que patamar está a música erudita brasileira?

Estamos caminhando. Ainda existe um vácuo muito grande. Porque as grandes realizações artísticas no Brasil são isoladas. E não é necessariamente por culpa disso ou daquilo, mas é a realidade em que a gente se encontra. Então eu acho que em número e  em qualidade o Brasil está caminhando, mas está bem melhor do que estava há 30 anos atrás quando eu saí do Brasil. Existe  essa evolução, mas a gente precisa ainda trabalhar muito para chegar lá. E o que isso significa? Investir em qualidade daquilo que a gente faz, na educação artística, formação de jovens músicos e talentos, formação de platéia, e numa emancipação da sociedade em geral, que entende que cultura é algo que eleva todo mundo. Não é coincidência que os países que  investem em cultura são os países mais desenvolvidos e são aqueles que competem melhor no mundo, não só em música. O Brasil finalmente está chegando em um nível que o Brasil está podendo competir, não é só porque achou petróleo na bacia de Santos ou seja o que for. É questão que estamos investindo mais em coisas que até pouco tempo atrás eram consideradas supérfluas, mas hoje em dia o pessoal vê que investir em educação musical trás benefícios para a criança em todos os sentidos, investir em formação de orquestras traz investimentos de companhias que vão querer se deslocar para cá, porque finalmente aqui vai ter uma grande ópera, uma grande orquestra, isso tudo é um atrativo. O Brasil só tem a crescer.


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