Foto: divulgação
Entre abril e novembro de 2010, o cineasta e professor
André Costa e o pesquisador de cinema
João Dumans se encarregam da curadoria da mostra – que discute, por meio de programações mensais, a “experiência do cinema”, marcada hoje pela convergência de diferentes meios técnicos e estratégias estéticas.
Agosto 2010 | Um Corpo contra o Mundo
Os enfrentamentos e os embates de personagens com o mundo real foram tratados de diferentes maneiras pelo cinema moderno e revelaram-se, desde cedo, como um vasto campo de experimentações formais. Perambulações, confrontos e derivas foram motivos recorrentes de narrativas que procuraram acolher as vibrações da realidade e evidenciar, por meio delas, os conflitos do sujeito com o mundo moderno. No centro desses conflitos esteve, com frequência, o corpo, resistindo ou se insurgindo contra as pressões que o constrangem. Os trabalhos da Mostravídeo do mês de agosto expandem as fronteiras desses confrontos com o mundo e revelam as diferentes consequências estéticas (e, por vezes, éticas) dos embates particulares que seus personagens protagonizam.
SESSÃO 1 - 04.08 | 19h30
Com sua narrativa quase linear,
The Cool World, de Shirley Clarke, é um objeto estranho em meio aos objetos estranhos do cinema norte-americano de vanguarda dos anos de 1950 e 1960. Numa época em que a produção abstrata e experimental imperava tanto nos guetos quanto nos lofts de Nova York, Clarke dirige um filme de forte inspiração neorrealista, movendo-se pelos domínios ainda mal explorados da ficção que se lançava às ruas das grandes cidades. Com poucos pares no cinema de ficção americano (
Shadows, dirigido por John Cassavetes em 1959, é a referência mais comum) e nomes de peso por trás de sua atmosfera lírica e realista (na trilha, Dizzy Gillespie; na produção, Frederick Wiseman),
The Cool World constrói um retrato único da vida e da violência nos bairros periféricos de Nova York.
The Cool World |
Shirley Clarke, Estados Unidos, 1964, 102 min,
16 mm
Atravessado por inserts documentais, o filme narra a história de Duke, um jovem de 15 anos morador do Harlem, bairro de maioria negra em Nova York, que luta para se impor num mundo de drogas, crimes e violência. Com o objetivo de conseguir um revólver e tornar-se chefe da gangue a que pertence, Duke presta favores a Priest, um dos criminosos responsáveis pelo controle do tráfico na região. Trilhando o caminho da marginalidade, o jovem procura preservar sua identidade num mundo assombrado pela morte. Filme exibido em formato original.
SESSÃO 2 - 11.08 | 19h30
Nascido em 1943, em Chicago, Jon Jost é um dos realizadores mais emblemáticos do cinema independente americano. Além de escrever, fotografar e editar grande parte de seus longas, o diretor compôs e executou a trilha sonora de alguns deles – caso de
Last Chants for a Slow Dance, sua primeira ficção. Neste filme árido e imprevisível, com tomadas que parecem se despregar livremente de uma tênue estrutura narrativa, Jost desconstrói o mito do fora da lei norte-americano que vaga gloriosamente pelas estradas do país. As palavras e os gestos gratuitos do desagradável Tom Bates, personagem e “agente” ficcional da história, revelam a violência de um homem cujas razões permanecem indecifráveis ao espectador.
Last Chants for a Slow Dance |
Jon Jost, Estados Unidos, 1977, 85 min,
DVD
Retrato psicológico de um desempregado que vaga pela cidade de Montana em busca de trabalho. À medida que sua jornada avança, entre conversas jogadas fora e noites desperdiçadas em bares e cafés, seu desinteresse pelas responsabilidades familiares e obrigações profissionais se torna evidente. O encontro final com um homem na estrada obscurece ainda mais os traços já ambíguos de sua personalidade.
SESSÃO 3 - 18.08 | 19h30
Um homem (o próprio Brakhage) luta para subir uma interminável montanha de neve ao lado de seu cachorro. Tendo por pano de fundo esse movimento a princípio simples, e uma estrutura formal que invalida qualquer descrição detalhada,
Dog Star Man é um verdadeiro épico sobre a confrontação do homem com as forças de criação e destruição do universo e da natureza, evocadas aqui por uma profusão hipnótica de cores, formas e texturas que irrompem na tela com a intensidade de um acontecimento único e improvável. Como em boa parte de sua extensa filmografia, Brakhage experimenta diferentes formas de inscrição e de manipulação do material fílmico (a luz, os objetos, a película) para colocar em movimento as vibrações internas de um mundo que a visão natural dificilmente é capaz de captar.
Dog Star Man |
Stan Brakhage, Estados Unidos, 1964, 75 min,
16 mm
O embate do homem com as forças naturais, um mito da criação realizado com luzes, imagens sobrepostas, cortes rápidos, texturas e silêncio. O planeta, uma floresta, a parte de um corpo, uma mulher dando a luz, um bebê. O fluxo de imagens convida a uma jornada no interior da vida e do tempo. Filme exibido em formato original, dividido em um prelúdio e quatro partes.
SESSÃO 4 - 25.08 | 19h30
Poucos realizadores exploraram tão bem a zona indistinta entre a construção narrativa e a figuração do corpo na imagem quanto Chantal Akerman, cineasta belga que realizou mais de 40 filmes, incluindo ficções, documentários e trabalhos experimentais. Valendo-se com frequência da duração prolongada dos planos como operadores de uma relação ambígua entre o corpo que atua e o corpo que performa, seus filmes convidam o espectador a uma imersão física e sensorial bastante intensa, na qual a narrativa evolui menos pela sucessão dos acontecimentos que por seu adensamento. Adensamento este que cumprirá, em boa parte de seus filmes, um papel político, já que nascem sob o signo da resistência e do combate contra os poderes instituídos (do estado, do cotidiano ou do homem).
Je Tu Il Elle |
Chantal Akerman, França/Bélgica, 1974, 90 min,
DVD
Comendo apenas açúcar por mais de um mês, uma mulher tenta lidar com o término de um relacionamento: pinta o quarto duas vezes, retira os móveis do lugar, escreve e reescreve cartas que depois espalha pelo chão. O açúcar acaba e, finalmente, ela sai de casa. Pega carona com um desconhecido que lhe pede para masturbá-lo. Algum tempo depois, ela chega à casa de sua amante.
MOSTRAVÍDEO ITAÚ CULTURAL: ENTRADA FRANCA COM RETIRADA DE INGRESSOS MEIA HORA ANTES DA SESSÃO
Serviço:
Evento: Mostravídeo Itaú Cultural – Um Corpo contra o mundo
Local: Cinema Humberto Mauro
Data: 04 a 25 de agosto
Horário: 19h30
Entrada franca
Informações: 3236-7400